terça-feira, 6 de abril de 2010

6 DE ABRIL: O DIA EM QUE PELÉ RUBRONEGROU

Pelé "flamengou", em 1979, por 45 minutos. Disputou o amistoso em que o Mengão goleou o Atlético-MG, por 5 x 1, no Maracanã, em benefício de vítimas de enchentes em Minas Gerais. Ele já estava “aposentado”, aos 38 anos de idade, e tinha feito alguns treinos, com a rapaziada santista. No Rio de Janeiro, provocou  histeria, na véspera da partida, quando fez seu único coletivo na Gávea. Arquibancadas e até mesas de um bar ao lado do estádio ficaram totalmente lotadas. Sem falar das janelas dos prédios vizinhos. Nem um forte esquema de segurança o livrou da tietagem.
Pelé chegou ao território flamenguista, pouco depois das 15h, junto com o empresário Alfredo Saad e o jornalista Oldemário Toguinhó, encontrando uma multidão o esperando, na porta. Abraçou Adílio, chamando-o de “meu futuro” e, com o meia, entrou abraçado no estádio. Em seguida, foi para o vestiário, vestiu a camisa branca, dos titulares, virando-a para não destacar o nome de uma firma de roupas. Passou 15 minutos concedendo entrevistas e posou para fotos, até o treino começar.
Passado o leve aquecimento, Pelé disputou 30 minutos de coletivo, tempo suficiente para fazer algumas deixadas, tabelas, dribles, uma cabeçada que mandou a bola no travessão e uma enfiada para Júnior (Leovegildo Lins Gama) marcar um dos gols do seu time – 3 x 0, com dois de Zico.
Fim de treino. Pelé previa que daria pra se entender legal com Zico, porque percebera o Fla tocando certinho na bola, facilitando a sua vida. Sobre o “Galinho de Quintino”, declarou: “Jogar ao lado do Zico é fácil, pois o que faz a graça do futebol é a criatividade, coisa que o garoto tem bastante”. Só um iten o decepcionava: o gramado da Gávea, muito irregular, pois ele já estava acostumado com a grama sintética dos seus tempos de Cosmos, nos Estados Unidos, onde encerrara a carreira. Mas se dizia com “fome de bola” e a vontade de jogar até quando suportasse, principalmente, pelo prazer de voltar ao Maracanã, estádio que sempre lhe aplaudira – o treinador do Fla, Cláudio Coutinho, deixara aquilo por conta dele.
O GRANDE DIA - Pela manhã, quase 200 operários limparam o Maracanã, enquanto outros tantos pintaram, de branco, a área em que o presidente João Figueiredo passaria. Banheiros, mal conservados, receberam sabonetes e papel higiênico. Por volta das 17h30, uns 10 mil torcedores já aguardavam pela abertura dos portões do estádio, marcada para as 18h. Como ingressos de arquibancadas esgotaram-se, um dia antes, só se encontrava bilhetes para a geral e os camarotes, o que fazia os cambistas venderem a entrada de arquibancada por Cr$ 200 cruzeiros, quatro vezes mais do que o valor nas agências bancárias.
Perto das 19h, um susto: o centro do Rio de Janeiro ficou às escuras, por cinco minutos, alvejado por relâmpagos e trovões, que chamaram um tremendo temporal, dez minutos depois. Resultado: os oito quilômetros de distância do Maracanã consumiam, em média, em 45 minutos, devido o engarrafamento de veículos. Estações do metrô, especialmente, na Praça da Bandeira, viraram um inferno.
O indesejável, porém, passou e chegou o grande momento. Nas tribunas do Maracanã, estavam o presidente da república, o general João Figueiredo, o ministro da Justiça, Petrônio Portella, os respectivos governadores do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, Chagas Freitas e Francelino Pereira, o deputado Magalhães Pinto, presidente do Congresso Nacional, até 1977, quando era senador, e o presidente da ainda Confederação Brasileira de Desportos – antecessora da Confederação Brasileira de Futebol – o almirante Heleno Nunes. Nas arquibancadas, cadeiras, camarotes e geral, 139 mil pagantes, que proporcionaram a renda de Cr$ 8.781.290,00 (cruzeiros e recorde da época), com cota de Cr$ 300 mil, pra cada clube.
FIGUEIREDO ERRA PLACAR - O presidente brasileiro chegou ao estádio às 20h15, recebido por Chagas Freitas e Heleno Nunes. Na tribuna de honra, sentou-se ao lado do irmão Luis Felipe e do chefe do governo estadual. Portava um rádio à pilha, para escutar a narração da partida. Antes, pela entrada das cadeiras especiais e cativas, demorara-se por cinco minutos. Depois, na sala vip, durante meia-hora, batera papo com autoridades. Sentou-se, para assistir ao amistoso, no instante em que os dois times pisavam no gramado, com os autofalantes anunciando a sua presença. A torcida nem deu bola. Preferiu agitar as bandeiras do Fla e se ligar na imagem de Pelé, projetada pelo placar eletrônico.
Figueiredo, que elogiara a atitude colaboradora do “Rei”, adotara, naquela noite, postura de chefe de estado, de torcedor frio. Mostrou um sorrisinho, quando Zico empatou o jogo – em 1 x 1, aos 36 minutos do primeiro tempo, cobrando um pênalti, à direita do goleiro João Leite (Marcelo Oliveira havia feito 1 x 0, para o Galo, aos 22, penetrando, entre Rondinelli e Manguito, após cruzamento de Serginho) – e fez breves comentários sobre os lances mais importantes. No mais, só um palpite errado: placar de 2 x 2.
O REI FERIDO - Pelé foi para o jogo com um estiramento no músculo adutor da coxa direita, provocado pela repetição de uma cobrança de falta, durante o treino, na Gávea. Só contou aquilo para o técnico rubro-negro, Cláudio Coutinho, o médico Célio Cotecchia e seu secretário particular, José Xisto, quando se reuniu ao time, na concentração, em São Conrado. Havia ficado na dele, para não dar a impressão de que estava “afinando”, no que fora apoiado por Xisto.
Entusiasmado, Pelé avisou ao secretário que jogaria de qualquer maneira, chegando a comparar o sentido daquela programação com uma final de Copa do Mundo. E arrematou: “Coloco um remédio em cima (do local contundido) e tudo está resolvido. Fique descansado” – e vestiu a 10 rubro-negra, com a braçadeira de capitão, numa cortesia do titular do posto, Paulo César Carpegiani.
ROLA A BOLA - Flamengo e Atlético-MG eram os campeões de seus estados, com equilíbrio no confronto, nos últimos 13 anos. Em 21 jogos, Fla 8 x 7, além de seis empates. No jogo anterior, em 06.08.78, os rubro-negros haviam feito 2 x 0, amistosamente, no Mineirão, o que tornava o novo duelo numa revanche, com o time de Zico invicto, há 38 partidas.
Rolava a bola e os atleticanos reduziram seu ritmo, após abrirem o placar. Com Pelé procurando mais o jogo e Andrade marcando Marcelo Oliveira mais de perto, o Fla cresceu, empatou e dominou. Matou o Galo, no segundo tempo, quando Luizinho estava na vaga do “Rei”. Os rubro-negros ganharam mais velocidade nas penetrações. Aos 8 minutos, Zico, trocando passes, com Luisinho, e trombadas, com os zagueiros mineiros, virou o placar, para 2 x 1. Aos 14, Júlio “Uhri Geller” César “entortou” o lateral Alves e cruzou para Zico fazer 3 x 1. Aos 27, da intermediária, Zico lançou Luisinho, que penetrou pelo meio da área, cortou Osmar e, de pé direito, aumentou para 4 x 1. aos 39, com o Flamengo já desinteressado do jogo, fechou o placar. Júnior partiu, da intermediária, com bola dominada, lançou Adão – entrara no lugar de Zico, após o quarto gol – que “liquidou a fatura”, na saída de João Leite: 5 x 1.
FICHA TÉCNICA – Data: 06.04.1979. Estádio: Maracanã, no Rio de Janeiro. Gols: Marcelo Oliveira, aos 22, e Zico, aos 36 min do 1º tempo; Zico, aos 8 e aos 14; Luisinho, aos 27, e Cláudio Adão, aos 39 min do 2º tempo. Árbitro: Valquir Pimental, auxiliado por José Carlos Moura e Roberto Coelho. Público: 139 mil pagantes. Renda: Cr$ 8.781.290,00. Flamengo: Cantarelle; Toninho Baiano, Rondinelli (Nélson), Manguito e Júnior: Andrade, Paulo César Carpegiani (Ramirez) e Zico (Cláudio Adão); Titã, Pelé, Luisinho e Júlio César (Reinaldo Gueldini). Técnico: Cláudio Coutinho. Atléticvo-MG: João Leite; Alves, Osmar, Luizinho e Hilton Brunis; Toninho Cerezzo, Marcelo Oliveira e Paulo Isidoro; Serginho (Pedrinho), Dario “Dada Maravilha” e Ziza (Vilmar).

Um comentário:

  1. Marcos Paulo Lima9 de abril de 2010 12:37

    Excelente recordação, Adelmar! Poucos torcedores sabem que o Pelé vestiu outras camisas além do Santos e do Cosmos. Parabéns!

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