quinta-feira, 22 de abril de 2010

O HOMEM QUE CALCULOU O MARACANÃ

Em 1948, o mercado para engenheiros no Brasil era restrito, principalmente, no setor de cálculos, pois só havia escolas de engenharia no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Porto Alegre, fato que obrigava as construtoras a importarem muitos profissionais da Europa. Por aquela época, o gaúcho (de Uruguaiana), Tertuliano Bofill estava com 28 anos de idade, formado pela carioca Universidade do Brasil (1946), e já carregando uma boa experiência, pois a escassez de engenheiros calculistas lhe garantira emprego antes de colar grau.
Como todo engenheiro atento ao mercado, no dia 14 de novembro de 1947, Tertuliano leu nos jornais que o prefeito do Rio de Janeiro, o general Ângelo Mendes de Moraes, assinara a lei municipal nº 57, que daria à cidade o maior estádio de futebol do mundo. Só não imaginava que, no ano seguinte, ele seria um dos engenheiros a trabalhar no projeto que permitiria o Brasil sediar a primeira Copa do Mundo depois da Segunda Guerra Mundial. “Por aquele tempo, o carioca ainda estava chocado com os horrores do conflito que o cinema mostrava”, lembra Tertuliano, hoje com 87 anos de idade, residindo em Brasília, ainda trabalhando e único sobrevivente do “time” de engenheiros que, há 58 anos, começou a construir o Maracanã. “Ainda sou uma criança. Nem cheguei aos 90. Por isso, ainda bato uma bolinha calculando, pois a minha aposentadoria, de R$ 1,650 reais não dá para pagar em o aluguel do apartamento”, brinca ele.
Tertuliano servia a uma construtora chamada Nacional, com escritórios na Rua México, nº 18, no Rio, quando foi convocado para trabalhar na construção do Maracanã, da metade até o final de 1948. “Seis empresas foram contratadas para construir o estádio e a nossa ficou responsável pela parte dos cálculos estruturais, o equivalente a um sexto das obras. Recebemos o projeto arquitetônico prontinho e caímos em cima nas verificações”, conta Bofill, acrescentando um detalhe: “O nome da firma era em português, mas predominavam engenheiros alemães, húngaros, suiços e iugoslavos (a Iugoslávia não existe mais como país). Éramos só três brasileiros”, relembra.
A firma que Bofill serviu durante a construção do Maracanã chegou ao Brasil nos anos da Segunda Guerra, como forma de seu presidente chefiar a propaganda nazista na América do Sul. “O Blantz (Bofill não se lembra do primeiro nome do alemão) foi descoberto e desmascarado, em 1945, por um famoso caçador de nazistas, o tal de Mister Connely, que servia na embaixada norte-americana, no Rio. A empresa foi à liquidação passou a ter como controladores um coronel, Luiz Toledo, e um engenheiro cujo nome não me lembro mais. Mas eles não podia, dispensar os engenheiros alemães, experientes e competentes. O rigor deles no trabalho era impressionante. Após eu analisar minunciosamente os cálculos estruturais, isso ainda passava pela conferência de mais dois engenheiros, para não permitir o aparecimento de gatos (arranjos fora do projeto). Como esse trabalho era feito no escritório, outros dois engenheiros ficavam permanentemente nas obras, atentos, conferindo tudo. Qualquer dúvida, vinham ao escritório me consultar. Independentemente disso, depois do expediente nas obras, eram obrigados a comparecerem à sede para fazerem um relatório sobre o dia”, relembra Tertuliano.
Além dos cálculos estruturais de um sexto das obras do Maracanã, Tertuliano Bofill foi encarregado também de seqüenciar, administrar os estudos que os engenheiros-residentes faziam para a parte volumétrica da obra. “Eram os volumes de concreto e de madeira, dos quilos de ferro, de cimento e brita, da mão-de-obra, enfim, de tudo o que deveria constituir o orçamento”, explica.
ARTIGO RARO - A estréia do engenheiro Tertuliano Bofill em construções esportivas deveria ter ocorrido três anos antes de ele participar da construção do Maracanã. Ele fora contratado para trabalhar na finalização do quarto pavimento do Jóquei Clube Brasileiro, como o que hoje seria estagiário de engenharia civil. Ficaria na construção de arquibancadas. Porém, o excesso de cálculos que esperavam por serem feitos no escritório da empresa mudou seu futuro. “Encontrar engenheiros calculistas era dificílimo”, afirma ele, sorrindo das dificuldades da época. “A engenharia brasileira daquele tempo ainda nem conhecia o madeirite. Pra se fazer as formas que receberiam os enchimentos, tinha-se que encomendar tábuas de pinho no Rio Grande do Sul”.
Tertuliano Bofill já usa programas de computadores nos trabalhos que pega hoje, mas na época que integrou o grupo que fez nascer o Maracanã não conseguia avançar muito durante as oito horas diárias de trabalho. “Era na base do lápis e da régua de calcular. No mais, eu só dispunha de uma maquineta suíça de fazer contas, o que de mais moderno havia no País. Era só aquilo. Você recebia o projeto e tinha de se virar com aqueles três instrumentos para fazer as hipóteses de cálculo. Era assim que o engenheiro calculista verificava se o dimensionamento do cálculo estava correto. Em um dia, não se fazia muita coisa, não”, relata.
Além das dificuldades tecnológicas, Tertuliano convivia também com atrasos na lei trabalhista brasileira. O domingo de descanso não era remunerado e os engenheiros eram obrigados a trabalhar quatro horas no sábado. Durante a semana, só tinham uma hora para almoçar. “E eu ainda tinha outra atribuição. Como não havia o que hoje se chama office boy no escritório, tinha de sair à rua para providenciar as cópias heliográficas do projeto que seria enviado ao engenheiro que estava na obra. Não havia cópias xerox no Brasil ainda”, historia.
ÚNICA VISITA - Durante a construção do Maracanã, a expectativa do carioca era muito grande, principalmente pela realização de uma Copa do Mundo no Brasil. “Os próprios engenheiros alemães achavam extraordinário estarem trabalhando para um evento daqueles”, afirma Tertuliano Bofill, que, por se destacar no Rio de Janeiro como calculista, recebeu o convite de uma firma inglesa para ganhar quase três vezes mais em São Paulo. Mas em só no Maracanã ele havia trabalhado no Rio. Fizera, também, cálculos para muitas outras obras, entre elas o píer da Praça Mauá.
Em São Paulo, Tertuliano acompanhou a Copa do Mundo de 1950 pelo rádio. No dia da final, entre Brasil e Uruguai, ele teve o pressentimento de que os visitantes levariam a taça. Então, foi ao cinema. Quando saiu, encontrou as ruas paulistanas mudas. “Se eu não tivesse trocado de emprego, certamente, estaria no Maracanã naquele dia, pois eu gostava muito de futebol, torcia pelo Botafogo, era sócio do clube. Fui a muito jogos e aplaudi bastante o Carvalho Leite, que era médico e um dos nossos grandes goleadores”, recorda ele, que só esteve uma vez no Maracanã. “Isso foi em 1951. Não me lembro qual era o jogo. Só me recordo que o público era pequeno e que passei grande parte da partida explicando a minha irmã, que levei junto, detalhes da construção do estádio”, revela o homem que fez, também, todos os cálculos para a construção de um prédio que ocupa um quarteirão em Salvador, o Fórum Ruy Barbosa.
TERRENO DE RIVAIS - Além do Maracanã, o engenheiro Tertuliano Bofill deu uma “mãozinha” também ao Flamengo. De volta ao Rio, em 1951, a firma que lhe tirou de São Paulo para chefiar seus engenheiros na Cidade Maravilhosa lhe entregou a fiscalização do acabamento dos últimos andares da sede flamenguista, no Morro da Viúva. Havia um engenheiro encarregado técnico e um responsável geral pelas obras. De repente, ele , o alvinegro, adentrava o terreno rubro-negro para inspecionar as obras.
Se o time do Flamengo tivesse o preparo físico daquele engenheiro gaúcho que lhe servia, certamente, iria despertar as suspeitas dos adversários. “Eu havia trabalhado no rigor dos alemães e depois com os pontuais ingleses. Aos 31 anos, subia os vinte-e-tantos degraus da obra correndo pelas escadas”, garante Bofill, que jura ter mantido o mesmo desempenho físico quando construiu eclusas (para a subida do nível de águas e permitir a nevegação) no Rio São Francisco e trabalhou no porto de Paranaguá, no Paraná.
Quando servia ao Flamengo, Tertuliano não encontrou mais pelo Rio os engenheiros alemães dos tempos que fez cálculos para o Maracanã. “Não vi mais o Glauzer, o Schwinter, o Dautzer, o Gheselhin, o Schroeder, nenhum dos 17 colegas da época”, cita.
PATAS DO CAVALO - No local onde hoje está o Maracanã, funcionou antes o Prado Fluminense, pertencente ao Derby Clube do Rio de Janeiro, aberto em agosto de 1885 e presidido pelo engenheiro Paulo de Frontin. Fechado após ser engolido pelo Hipódromo da Gávea, inaugurado em 1926, o Derby fundiu-se ao Jóquei Clube, em 1930, para criar o Jóquei Clube Brasileiro. Mais tarde, este permutou o terreno por outra área com a antiga Prefeitura do Distrito Federal, vindo o local, durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, a ser usado pelo exército brasileiro como destacamento de carros de combate.
Quando o prefeito do Rio, Mendes de Moraes, partiu para a construção do estádio, encontrou forte oposição da UDN (União Democrática Nacional), liderada pelo deputado Carlos Lacerda, que defendia a construção na Baixada de Jacarepaguá. Mas terminou nascendo nas proximidades dos rios Trapicheiros e Maracanã, bem perto da confluência da Tijuca com o Andaraí.
Não se sabe quem marcou o primeiro gol no Maracanã, pois na noite de 16 de junho de 1950, foi disputada uma pelada entre engenheiros e operários para testes do gramado. Ninguém anotou o placar. Oficialmente, o primeiro gol foi marcado por Valdir Pereira da Silva, o Didi, meia do Botafogo, no jogo entre as seleções de novos do Rio e de São Paulo. “Aos 9 minutos do primeiro tempo, Silas tabelou comigo na entrada da área. Bati , de pé direito, com efeito, e a bola fez uma curva, passando pelo ângulo direito do Osvaldo (goleiro paulista)”, me contou Didi, há 14 anos, durante um almoço aqui em Brasília, junto com o ex-atacante botafoguense Jairzinho e o jornalista Jorge Martins.
FICHA DA CONSTRUÇÃO
Foram consumidos 500 mil sacos de cimento;
10 mil toneladas de ferro;
80 mil metros cúbicos de concreto;
650 mil metros quadrados de madeira;
45 mil metros quadrados de areia;
39 mil e 572 mil meros cúbicos de terra escavados para fundações;
475 mil e 562 metros quadrados de formas;
137 milhões e 700 mil metros cúbicos de aterro;
40 mil caminhões foram utilizados;
7 milhões e 730 mil horas de trabalho ininterruptos.

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